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Sobre muros e pontes

Atravessamos um tempo em que uma vez mais se erguem muros (até de concreto!) que refletem inimizades culturais, econômicas, comerciais, políticas, militares ou religiosas entre pessoas, povos ou países “civilizados”. Chegam até nós manchetes, notícias e imagens de barcos naufragados, de milhares de mortos e de sobreviventes refugiados, porém não acolhidos. De vistos negados, de estrangeiros expulsos. Assim fica evidente para nós essa condição entre europeus e sírios, palestinos e judeus, norte-americanos e mexicanos, norte-americanos e muçulmanos. E quanto a mim? E a você?

“Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições. Desse modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade.” [Ef 2, 14-16]

Quem são seus verdadeiros inimigos? Parentes inimigos? Inimigos parentes? Inimigos íntimos? Inimigos ricos, inimigos pobres? Tem inimizades que atravessaram décadas? Inimigos para sempre? Que resistiram ao desejo de superação, de reconciliação e à força da misericórdia? Que foram se revestindo de interesses pessoais irreconciliáveis e excludentes? Inimigos estrangeiros? Inimigos políticos, comerciais, religiosos? Com grande diferença de idade? De outra geração, de outra época? Menos provável. Maior diversidade cultural, maior distância física ou emocional, menor chance de criar e cultivar uma inimizade. Ou não. Mas, afinal, quantos inimigos você tem? Quem são eles? Elas? Um “milhão” de inimigos? Dois ou três? Apenas um único? Uma única? Que de modo algum compreende você, incapaz de ver o seu lado? E você, acredita fazer parte da lista de inimigos de alguma outra pessoa? Já foi rejeitado ou excluído de algum círculo de amizades virtuais ou no mundo real?

“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” [Jo 15, 13)]

Quem são seus verdadeiros amigos? Parentes amigos? Amigos parentes? Amigos íntimos? Amigos ricos, amigos pobres? Tem amizades que atravessaram décadas? Amigos para sempre? Que resistiram à prova do tempo, ou melhor, às provas do tempo? Que foram se despindo de interesses secundários para se firmar apenas nas próprias pessoas? Amigos estrangeiros? Que professam uma fé diferente da sua? Com grande diferença de idade? De outra geração, de outra época? Menos provável. Menor afinidade cultural, menor chance de amizade. Ou não. Mas, afinal, quantos amigos você tem? Quem são eles? Elas? Um “milhão” de amigos? Dois ou três? Apenas um único? Uma única? Que lê pensamentos, ou melhor, que lê sentimentos e ajuda a mudá-los? E você, acredita fazer parte da lista de amigos de alguma outra pessoa? Não apenas da lista de amigos virtuais em redes sociais, mas de amigos presenciais, claro.

“Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito.” [Mt 5, 43-48]

Jesus, o Senhor da vida, não só transformou servos em amigos, mas foi além. Deu a vida não apenas por seus parentes e amigos, mas pode transformar inimigos em amigos pela força do seu amor de cruz. De fato, ele deu a vida quando ainda éramos inimigos de Deus!

Você tem amigos que, de repente, viraram inimigos? E inimigos que, após um longo tempo, viraram amigos? Bom, além dos amigos e inimigos, existem os estranhos. Aquelas pessoas que você ainda não teve oportunidade de conhecer e classificar, acolher ou afastar.

Fiquemos com a exortação do Papa Francisco feita por ocasião dos 25 anos da queda do emblemático Muro de Berlim:

“Rezemos a fim de que, com a ajuda do Senhor e a colaboração de todos os homens de boa vontade, se difunda sempre mais uma cultura do encontro, capaz de derrubar todos os muros que ainda dividem o mundo, e não mais aconteça que pessoas inocentes sejam perseguida e até mesmo mortas por causa de seu credo e de sua religião. Onde há um muro, há fechamento de coração! Precisamos de pontes, não de muros!”