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A escuta e o olhar maternos

Antigamente quando uma criança fazia “arte” os adultos diziam: você precisa virar gente!

            É engraçado como a sabedoria popular às vezes é muito profunda, porque realmente nós precisamos aprender a ser gente.

            Somos diferentes do mandruvá, por exemplo, que nasce sabendo tudo o que tem para fazer na sua curta vida. Fica no coqueiro se alimentando até ficar bem gordinho, depois desce do coqueiro e procura um lugar seguro para se transformar em borboleta.

            Nós não somos assim, nascemos completamente dependentes, sem alguém para cuidar de nós morremos; sem ninguém para nos ensinar a ser gente, não viramos gente.

            Quando um bebê chora não sabe o porquê, chora por sentir algum desconforto. É a mãe com seu ouvido atento que dá significado ao choro. A mãe sabe se o choro é por fome, ela dá de mamar; se o choro é por frio, ela coloca um cobertor; se o choro é por cólicas, ela aquece a sua barriguinha.

            Imagina se a mãe não soubesse distinguir o choro. Sendo fome ela coloca um cobertor ou sendo cólicas ela troca a fralda.

            A mãe é a primeira pessoa a dar significados à vida do bebê, é a primeira a começar a ensiná-lo a ser gente.

            O olhar materno é outro instrumento essencial para ajudar o bebê a ser gente. Quando a criança está mamando e o seu olhar encontra o olhar da sua mãe, este momento é um dos mais importantes para o pleno desenvolvimento psíquico e emocional do bebê.

            Nesse olhar a mãe transmite ao bebê as percepções que ele é bem vindo e é amado. Nesse olhar a mãe coloca coisas boas dentro da criança que lhe serão essenciais na superação dos conflitos cotidianos.

            Infelizmente quando isso não acontece, nós não aprendemos a ser gente, continuamos animais como nascemos.

            Por isso, que os filhos das ruas, crianças que nascem e crescem nas ruas sem ninguém para dizer que são amadas, sem ninguém para ensiná-las a ser gente, sem ninguém para dar significados à sua vida, matam por um tênis usado sem nenhum constrangimento.

            Por isso, que os filhos abandonados dentro de casa, sem ninguém para ensiná-los a ser gente, sem ninguém que os olhe e os escute, não conseguem desenvolver e compreender suas emoções, por vezes acabam se autodestruindo.

            Aprendemos a ser gente convivendo e sendo amado por gente, como nos pede o Padre Zezinho em um verso da sua música, um verso tão bonito e cheio de sabedoria: “Que a criança aprenda no colo o sentido da vida”.